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Crenças irracionais: quando preferências viram exigências

Entenda o que são crenças irracionais em Albert Ellis e quando preferências viram exigências, sem culpar a pessoa nem negar a realidade.

Crenças irracionais: quando preferências viram exigências
Placa editorial da editoria Fundamentos da PSL.

A mensagem é simples, mas já foi relida oito vezes. A pessoa quer ser compreendida. Aos poucos, esse desejo ganha outra forma: “Preciso escrever perfeitamente. Se houver mal-entendido, serei rejeitado.” O cursor continua piscando, os ombros endurecem e a conversa nem começou. Compreender as crenças irracionais ajuda a distinguir vontade de obrigação antes que o corpo endureça.

Além disso, Albert Ellis chamou de crenças irracionais certas avaliações rígidas que transformam preferências em exigências. O termo pertence ao vocabulário técnico da Terapia Racional-Emotiva Comportamental, a REBT. Não significa que a pessoa seja burra, ilógica em tudo ou responsável pelo que lhe aconteceu. A questão é mais específica: como ela avalia a adversidade e o que essa avaliação torna mais provável.

O que são crenças irracionais na REBT

Por outro lado, na REBT, crenças irracionais são avaliações rígidas, extremas e pouco ajustadas à realidade. Costumam aparecer como obrigação, catastrofização, baixa tolerância à frustração ou condenação global de si e dos outros.

Nesse sentido, uma pessoa pode pensar: “Quero muito ser aprovada”. A preferência admite frustração. A formulação “tenho de ser aprovada, ou não valho nada” acrescenta uma exigência e uma sentença sobre o próprio valor.

Nas crenças irracionais, acontecimento e avaliação não são a mesma coisa

Assim, receber uma crítica é um acontecimento. Concluir que ela prova incompetência total é uma avaliação. A distinção permite perguntar o que ocorreu, como foi interpretado e quais emoções e Gestos vieram depois. Esse mesmo mecanismo de leitura rápida é explorado no artigo sobre pensamentos automáticos.

Contudo, separar não significa fingir que o acontecimento é neutro. Significa não tratar evento e significado como se fossem uma única coisa impossível de examinar.

O evento continua importando

Portanto, perdas doem, humilhações ferem e ameaças reais exigem proteção. A REBT destaca o papel das crenças na resposta emocional e comportamental, mas essa ênfase não autoriza dizer que tudo depende da interpretação.

Dessa forma, violência, doença, privação e discriminação produzem consequências concretas. A avaliação participa da experiência sem apagar o que pessoas e condições materiais fizeram. As crenças irracionais participam dessa leitura, mas não criam sozinhas o que aconteceu.

Crenças irracionais: quando a preferência vira exigência

“Eu gostaria que me tratassem com respeito” é uma preferência legítima. “Todos devem me tratar bem em qualquer circunstância, e não posso suportar se isso não ocorrer” converte o desejo em lei universal.

Ainda assim, a rigidez não torna o respeito menos importante. Ela acrescenta a ideia de que a realidade não poderia contrariar a expectativa, embora às vezes contrarie.

Crenças irracionais e o “deveria” que amplia a perturbação

Por isso, nem todo “deveria” é problemático. Há deveres éticos, acordos e responsabilidades reais. A questão surge quando a palavra funciona como exigência absoluta sem alternativa concebível.

Em contrapartida, depois de um erro, “eu deveria ter agido diferente” pode orientar reparação. “Eu jamais poderia errar” transforma um ato revisável numa condição impossível de humanidade.

“Não suporto” nem sempre descreve incapacidade

Da mesma forma, uma pessoa diz que não suporta ser contrariada, mas continua vivendo, trabalhando e procurando soluções após a discordância. Nesse caso, a frase pode comunicar intensidade, não incapacidade literal.

Nesse caso, ainda assim, o profissional não deve corrigir a linguagem depressa. É preciso conhecer dor, recursos e risco. Há situações que realmente excedem as condições atuais de alguém.

Crenças irracionais não significam ausência de inteligência

Por conseguinte, pessoas brilhantes sustentam regras rígidas, assim como qualquer pessoa. A crença pode ter coerência interna e ainda depender de uma premissa absoluta: “Se eu falhar, meu valor desaparece”.

Ao mesmo tempo, o rótulo técnico deve ser aplicado à formulação, não à pessoa. Quando vira insulto ou argumento de autoridade, perde utilidade e fecha o diálogo que deveria abrir.

Crenças irracionais: regras rígidas podem ter história

Mais adiante, uma criança que recebia afeto apenas quando acertava pode aprender que desempenho e pertencimento caminham juntos. A regra foi compreensível naquele ambiente. Mais tarde, talvez continue operando onde o vínculo admite erro.

Em seguida, compreender a origem não obriga conservar a regra. Também não permite inventar uma causa infantil quando faltam dados.

Uma regra implícita aparece nos Gestos

De fato, nem sempre a pessoa pensa uma frase completa. A regra pode aparecer no corpo que se contrai, no pedido que não é feito ou na revisão interminável antes de enviar uma mensagem.

Diante disso, esses Gestos sustentam uma hipótese, não uma leitura mental. Perguntas, variações entre situações e consequências observáveis ajudam a descobrir se havia exigência, prudência ou outra função. Esse exame ajuda a diferenciar crenças irracionais de reações pontuais ao contexto.

Crenças irracionais não são Gesto Fundante

Em outras palavras, uma crença irracional é uma avaliação. Gesto Fundante é um constructo da PSL para investigar uma organização recorrente, longitudinal e transversal dos Gestos. Os conceitos não são equivalentes.

Por sua vez, uma frase rígida isolada não identifica GF. Ela pode resultar de cansaço, pressão recente, linguagem habitual ou risco concreto. O artigo sobre crenças centrais e Gesto Fundante detalha essa diferença.

Crenças irracionais também não são Gesto Orbitante

Consequentemente, gesto Orbitante descreve um Gesto recorrente que pode organizar-se em torno de uma hipótese de GF. Crença descreve uma formulação avaliativa. Uma pode participar da outra sem que sejam a mesma coisa.

De todo modo, transformar toda exigência em GO apenas troca um nome por outro. A relação precisa ser demonstrada por recorrência, contexto e consequência.

A mesma crença pode produzir Gestos diferentes

“Preciso ser aprovado” pode levar alguém a calar, agradar, discutir, trabalhar sem descanso ou abandonar a tarefa antes da avaliação. A frase não determina uma única resposta.

Além disso, o inverso também vale. Duas pessoas podem permanecer em silêncio, uma por medo de rejeição e outra porque escolheu não alimentar uma provocação.

Relações atuais podem impor condições reais

Por outro lado, nem toda sensação de condicionalidade vem do passado. Chefias podem retaliar discordâncias, famílias podem controlar recursos e parceiros podem punir limites. Nesses casos, cautela não é simples distorção. Nem toda cautela diante de condições reais nasce de crenças irracionais.

Vínculo exige observar como o outro responde de fato. Uma hipótese interna não pode substituir dados sobre poder, dependência e segurança.

Flexibilidade não legitima injustiça

Nesse sentido, aceitar que uma injustiça ocorreu não significa considerá-la aceitável. A formulação flexível pode ser: “Isto não deveria acontecer segundo meus valores, aconteceu, e posso decidir como responder”.

Assim, essa posição preserva crítica e ação. O que ela abandona é a ideia de que reconhecer o fato consumado equivale a concordar com ele.

Tolerar não obriga permanecer

Contudo, perceber que alguém consegue atravessar uma experiência difícil não cria dever de continuar exposto. Uma pessoa pode suportar uma relação abusiva e, justamente por discriminar o dano, escolher sair.

Portanto, tolerância é capacidade, não contrato de permanência. Segurança e limite continuam prioritários.

Inverter a regra mantém a rigidez

“Preciso agradar sempre” não se torna flexível ao virar “nunca agradarei ninguém”. As duas frases eliminam contexto e escolha.

Dessa forma, uma alternativa mais ampla seria: “Posso considerar o outro sem abandonar todas as minhas necessidades”. Flexibilizar não é trocar o polo da obrigação. É recuperar mais de uma resposta possível.

A preferência pode continuar importante

Ainda assim, questionar uma exigência não exige indiferença. A pessoa pode querer amor, reconhecimento, justiça ou bom desempenho com grande intensidade.

Por isso, a mudança está em retirar dessas preferências o poder de definir valor pessoal ou impossibilidade de seguir vivendo. Desejo forte e flexibilidade não são opostos.

Questionar não é impor uma filosofia

Em contrapartida, o Terapeuta Psicosistêmico não ocupa o lugar de juiz da racionalidade. Pode perguntar: esta regra é compatível com os fatos? Ajuda a pessoa a agir conforme seus valores? Admite exceções e limites?

Da mesma forma, a resposta precisa ser construída com o Portador. Persuadir alguém a aceitar uma teoria seria apenas substituir uma exigência por outra. O objetivo é examinar as crenças irracionais junto com o Portador, não convencê-lo de uma filosofia pronta.

A hipótese profissional precisa poder perder

Nesse caso, se o profissional supõe que há uma regra rígida, deve buscar também dados que a enfraqueçam. A pessoa tolera erros em alguns vínculos? A exigência desaparece quando o risco muda? Há uma explicação mais simples?

Por conseguinte, uma hipótese que interpreta toda discordância como resistência deixa de ser investigável. Ela protege a teoria, não o cuidado.

O retorno da regra não prova fracasso

Ao mesmo tempo, sob cansaço, perda ou pressão, uma formulação antiga pode reaparecer. Isso não apaga todas as experiências em que a pessoa respondeu de outra maneira.

Mais adiante, o acompanhamento deve comparar frequência, intensidade, duração e consequências. Mudança raramente significa ausência definitiva de qualquer pensamento rígido.

Tempo diferencia história e lei permanente

Tempo permite observar quando a regra surgiu, em quais períodos ganhou força e se continua útil. Algo aprendido numa relação pode perder precisão em vínculos posteriores.

Em seguida, também pode voltar em condições semelhantes às antigas. A pergunta não é apenas “de onde veio?”, mas “como varia e o que mantém hoje?”. Observar essa variação evita tratar crenças irracionais como sentença definitiva.

Vínculo e Fluxo ampliam a escolha

Vínculo compara relações concretas: quem pune diferença, quem negocia e quem oferece apoio. Fluxo acompanha se o repertório ficou preso a agradar, controlar ou evitar, ou se outras respostas se tornaram disponíveis.

De fato, o Campo Relacional não pensa nem ensina. Pessoas agem, condições limitam e consequências ocorrem. A análise organiza esses dados sem transformar o Campo em agente oculto.

PIGF, dois registros e limites

GF só pode ser confirmado pelo PIGF. CR1 exige recorrência transversal em pelo menos três domínios da vida. CR2 observa carga afetiva ou somática associada. CR3 requer impacto em pelo menos 75% dos eventos críticos documentados. CR4 exige persistência em dois ou mais períodos. A confirmação requer CR1 mais dois entre CR2, CR3 e CR4. Uma crença rígida, por mais intensa, não substitui essa convergência.

Diante disso, no Registro Científico-Operacional, anotam-se situação, formulação avaliativa, intensidade, Gesto, consequência e variação entre contextos. No Registro Fenomenológico-Simbólico, a pessoa pode dizer que vive diante de uma régua que nunca para de subir. A imagem comunica experiência, mas só ganha uso técnico quando traduzida em dados observáveis.

LE1 impede que uma crença ou GF explique a pessoa inteira. LE2 preserva avaliação e cuidado apropriados diante de sofrimento intenso, risco ou outras necessidades clínicas. LE3 mantém visíveis violência, discriminação e restrições materiais. LE4 reconhece variação individual e a possibilidade de não haver GF dominante identificável.

Referências