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Fundamentos da PSL

Assimilação em Piaget: quando o novo encontra o que já conhecemos

Entenda a assimilação em Piaget e como o novo encontra esquemas já disponíveis sem transformar o presente em mera repetição do passado.

Assimilação em Piaget: quando o novo encontra o que já conhecemos
Placa editorial da editoria Fundamentos da PSL.

Num exemplo hipotético, uma pessoa recebe a mensagem: “Precisamos conversar amanhã”. Antes de saber o assunto, sente o peito apertar e imagina uma repreensão. A mensagem é nova. A forma disponível para compreendê-la, porém, nasceu em experiências anteriores. Este texto examina assimilação em Piaget e os limites de usar o passado como veredito sobre o presente.

Jean Piaget chamou de assimilação o processo pelo qual incorporamos elementos novos a esquemas já disponíveis. Isso não é, por si só, um erro. Sem alguma continuidade, cada situação começaria do zero. O problema surge quando a primeira leitura recebe autoridade de veredito e deixa de ser corrigida pelo que o presente mostra.

Assimilação em Piaget: usar uma organização que já existe

Além disso, para Piaget, conhecer não significa copiar passivamente a realidade. O sujeito age, compara, coordena e organiza o que encontra. Um esquema é uma organização da ação ou do conhecimento que pode ser aplicada em situações relacionadas. Esse ponto é central para entender assimilação em Piaget.

Por outro lado, quando um bebê já consegue agarrar, objetos diferentes podem ser incorporados a essa organização. Cada objeto exige ajustes, mas a interação não começa sem recursos anteriores. A assimilação explica essa continuidade entre o que já foi construído e o que acaba de aparecer.

Assimilação em Piaget: esquema não é uma caixa mental

Nesse sentido, na linguagem cotidiana, “esquema” pode parecer uma pasta em que informações são guardadas. Em Piaget, o conceito é mais dinâmico. Ele envolve uma forma organizada de agir e de dar sentido ao objeto por meio da atividade.

Assim, por isso, assimilar não é simplesmente colocar um fato numa categoria verbal. É encontrar algo com capacidades já disponíveis e incorporá-lo ao funcionamento dessas capacidades. O tema se aproxima do que já foi tratado em esquemas cognitivos.

Assimilação não é sinônimo de distorção

Contudo, o conhecimento anterior permite reconhecer regularidades, antecipar consequências e utilizar o que foi aprendido. Uma criança não precisa descobrir novamente como agarrar a cada objeto. Um adulto não precisa reaprender toda a linguagem diante de cada frase.

Portanto, assimilação é necessária. Ela se torna insuficiente quando diferenças relevantes não encontram lugar e o esquema permanece intocado. O problema não é haver continuidade, mas impedir que a experiência também ensine. Esse cuidado dialoga com o que já foi discutido sobre distorções cognitivas.

Acomodação é o polo complementar

Dessa forma, Piaget não tratou assimilação e acomodação como comportamentos isolados nem como alternativas entre uma resposta ruim e outra boa. Ao assimilar, o sujeito incorpora o objeto a um esquema. Ao acomodar, ajusta esse esquema às particularidades do objeto.

Ainda assim, os processos operam juntos. Um esquema precisa conservar alguma continuidade para continuar reconhecível e, ao mesmo tempo, modificar-se quando o que encontra não cabe inteiramente nele. Essa complementaridade é a base da assimilação em Piaget.

Assimilação em Piaget: a primeira leitura não é a última

Por isso, voltemos à mensagem ambígua. Experiências anteriores podem explicar por que a pessoa antecipa uma repreensão. Isso ainda não informa o conteúdo da conversa de amanhã. Essa mesma cautela orienta o texto sobre pensamentos automáticos.

Em contrapartida, a leitura inicial pode orientar atenção e preparação. Para se tornar conclusão, precisa encontrar dados: quem enviou a mensagem, como costuma comunicar-se, o que aconteceu antes e o que de fato ocorre depois.

Semelhança não é identidade

Da mesma forma, um tom de voz pode lembrar alguém do passado. Uma demora pode parecer outro afastamento. Um pedido pode trazer a sensação de uma exigência antiga.

Nesse caso, reconhecer semelhança é diferente de afirmar identidade. A frase “isso se parece com algo que vivi” preserva duas épocas. A frase “é a mesma coisa” pode apagar diferenças antes de examiná-las.

Assimilação em Piaget: cautela aprendida pode proteger

Por conseguinte, nem toda expectativa formada no passado é inadequada. Quem viveu violência, coerção ou imprevisibilidade pode ter aprendido a notar sinais relevantes com rapidez. Tratar essa cautela como distorção automática repete a desautorização da experiência.

Ao mesmo tempo, a investigação precisa perguntar se existe risco atual, quais evidências o sustentam e que proteção é necessária. A possibilidade de uma leitura anterior influenciar o presente não elimina a possibilidade de o perigo ser real. Esse cuidado caracteriza a assimilação em Piaget na prática.

O corpo informa mobilização, não a conclusão

Mais adiante, respiração, postura, tensão e impulso de afastamento podem mudar antes que a pessoa formule uma interpretação. Esses sinais mostram que algo ganhou relevância para o organismo.

Em seguida, não demonstram, sozinhos, que a situação atual seja igual à anterior. Corpo oferece dado sobre a resposta presente; não funciona como juiz infalível do Campo nem como marcador específico de GF ou GO. A distinção fica clara quando se aplica assimilação em Piaget ao cotidiano clínico.

Um Gesto conhecido pode aparecer cedo

De fato, quando a situação parece familiar, respostas conhecidas ficam disponíveis. A pessoa pode silenciar, explicar-se longamente, antecipar necessidades ou afastar-se. Essas respostas talvez tenham protegido pertencimento ou segurança em outro contexto.

Diante disso, repetição isolada não autoriza classificá-las como Gesto Orbitante. É preciso investigar função, recorrência, contexto, consequências e alternativas possíveis.

Assimilação em Piaget: o Campo atual conserva realidade própria

Em outras palavras, uma expectativa de rejeição pode fazer demora, autonomia e necessidade de espaço receberem a mesma interpretação. Às vezes, porém, o outro é realmente inconsistente ou rejeitador.

Por sua vez, a tarefa não é convencer a pessoa de que tudo vem do passado. É distinguir o que a história tornou provável, o que o presente confirma e o que contradiz a leitura inicial. Esse é o núcleo prático da assimilação em Piaget aplicada à PSL.

Informação discrepante precisa ser procurada

Consequentemente, se uma hipótese só coleciona confirmações, ela pode estar protegida contra revisão. Convém perguntar: que acontecimento mostraria que esta leitura está incompleta? Houve respostas que não combinam com a previsão? Elas foram registradas ou descartadas?

De todo modo, o dado discrepante não invalida automaticamente toda a história. Ele testa o alcance da explicação e pode revelar condições em que outra resposta se torna possível.

Previsão e desfecho ajudam a aprender

Além disso, antes de uma conversa, a pessoa pode registrar: “Se eu discordar, ele encerrará o contato”. Depois, registra o que ocorreu, incluindo palavras, ações, duração e retomada. O exercício de registrar previsão e desfecho é parte da assimilação em Piaget em ação.

Por outro lado, comparar previsão e desfecho reduz a dependência de memória seletiva. Uma ocorrência não resolve a questão, mas séries de observações permitem verificar quando a expectativa se confirma, quando falha e quais variáveis mudam.

Assimilação em Piaget: o presente também confirma o passado

Nesse sentido, revisar hipóteses não significa presumir que toda antecipação seja falsa. Às vezes, a resposta esperada realmente acontece. Uma pessoa pode colocar um limite e encontrar punição, desqualificação ou retirada de apoio.

Assim, nesses casos, a novidade pode estar em reconhecer com maior precisão o que ocorre e escolher proteção, distância ou ajuda. Flexibilidade não exige permanecer num vínculo nocivo para provar abertura ao novo.

Gesto Fundante não é esquema piagetiano

Contudo, esquemas pertencem à teoria de Piaget sobre organização da ação e construção do conhecimento. Gesto Fundante é um constructo da PSL usado para formular uma possível organização recorrente da experiência e da relação.

Portanto, há uma aproximação possível em torno da continuidade, mas não uma equivalência. Piaget não validou o GF com outro nome, e a assimilação não oferece evidência científica direta para constructos da PSL. A página Fundamentos da PSL reúne os constructos citados aqui.

Gesto Orbitante não é assimilação

GO designa, na PSL, uma hipótese sobre respostas recorrentes que orbitam certa organização. Assimilação descreve um processo funcional mais amplo na teoria piagetiana.

Dessa forma, uma conduta pode utilizar aprendizagem anterior sem ser GO. Da mesma forma, chamar algo de GO exige critérios próprios e não pode ser justificado apenas pela semelhança com a linguagem de Piaget.

A teoria também precisa aceitar correção

Ainda assim, o Terapeuta Psicosistêmico encontra a pessoa com conceitos e expectativas. Depois de aprender GF, pode começar a enxergá-lo em toda recorrência. Depois de aprender GO, pode tratar qualquer repetição como orbitante.

Por isso, uma explicação que absorve todos os acontecimentos e nunca admite erro deixa de aprender com o encontro. A hipótese profissional precisa poder ser corrigida, limitada ou abandonada.

Assimilação em Piaget: indicadores tornam a pergunta observável

Em contrapartida, podem ser registrados o tempo entre acontecimento e interpretação, a conclusão inicial, a intensidade corporal, a previsão formulada, o comportamento escolhido, a resposta do outro e a revisão posterior.

Da mesma forma, também importa observar se a mesma conclusão aparece em contextos diferentes, se informações discrepantes são reconhecidas e se novos dados modificam a hipótese. Esses indicadores não diagnosticam assimilação, GF ou GO. Eles tornam examinável a relação entre expectativa e experiência.

Tempo, Vínculo e Fluxo

Tempo distingue lembrança, situação atual e antecipação. Vínculo examina o que o outro efetivamente faz, incluindo reciprocidade, limite, coerção e reparação. Fluxo acompanha se o repertório conhecido continua adequado ou se outras respostas se tornam possíveis.

Nesse caso, o objetivo não é abandonar tudo o que foi aprendido. É impedir que uma única resposta permaneça obrigatória quando as condições mudaram.

PIGF, dois registros e limites

GF só pode ser confirmado pelo PIGF. CR1 exige recorrência transversal em pelo menos três domínios da vida. CR2 observa carga afetiva ou somática associada. CR3 requer impacto em pelo menos 75% dos eventos críticos documentados. CR4 exige persistência em dois ou mais períodos. A confirmação requer CR1 mais dois entre CR2, CR3 e CR4. Semelhança com um esquema ou uma interpretação rápida não substitui esses critérios.

Por conseguinte, no Registro Científico-Operacional, documentam-se contexto, previsão, comportamento, resposta observável, alternativas e mudança ao longo do tempo. No Registro Fenomenológico-Simbólico, a pessoa pode dizer: “Aquela mensagem já chegou vestida com a voz do passado”. A imagem expressa a experiência; não prova que o presente repete a história.

LE1 impede que assimilação, GF ou Campo explique a pessoa inteira. LE2 preserva encaminhamento quando há risco, sofrimento intenso ou necessidade clínica. LE3 inclui violência, poder, condições materiais e acesso a proteção. LE4 reconhece variabilidade e a possibilidade de não haver padrão estável nem GF dominante identificável.

Assimilação em Piaget: o novo precisa ter direito de resposta

Ao mesmo tempo, Piaget mostrou que a continuidade do conhecimento depende de estruturas anteriores e que essas estruturas se ajustam ao que encontram. A revisão contemporânea dos conceitos confirma sua influência, mas também recomenda precisão sobre o que está sendo incorporado e o que está sendo modificado.

Mais adiante, no diálogo com a PSL, a contribuição mais fértil é uma disciplina de corrigibilidade. A história ajuda a formular a primeira hipótese. O corpo mostra que algo foi mobilizado. O Gesto revela uma resposta disponível. Ainda assim, o Campo atual precisa poder confirmar, contrariar ou ampliar o que já era conhecido.

Em seguida, assimilar permite reconhecer. Aprender começa quando aquilo que chega também recebe o direito de responder.

Referências

  • Hanfstingl, B., Arzenšek, A., Apschner, J., & Gölly, K. I. (2022). Assimilation and accommodation: A systematic review of the last two decades. European Psychologist, 27(4), 320-337. https://doi.org/10.1027/1016-9040/a000463
  • Piaget, J. (1938). Le problème de l’intelligence et de l’habitude: Réflexe conditionné, “Gestalt” ou assimilation. In Onzième Congrès International de Psychologie, Paris, 25-31 juillet 1937: Rapports et comptes rendus. unige.ch/piaget
  • Piaget, J. (1964). Six études de psychologie. Gonthier. unige.ch/piaget
  • Piaget, J. (1975). L’équilibration des structures cognitives: Problème central du développement. Presses Universitaires de France. unige.ch/piaget