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Fundamentos da PSL

O que significa uma imagem de sonho? Jung e a leitura da PSL

Uma imagem de sonho não possui significado fixo. Jung já valorizava o contexto e as associações pessoais; a PSL acrescenta uma leitura situada do que acontece no Corpo, no Campo Relacional e nas possibilidades de resposta do Portador.

O que significa uma imagem de sonho? Jung e a leitura da PSL
Placa editorial da editoria Fundamentos da PSL.

Uma serpente aparece em um sonho. Uma pessoa, então, tenta expulsá-la; outra, ainda assim, permanece perto dela, assustada e curiosa. A imagem, enfim, é parecida. A experiência, no entanto, não.

Por isso, uma imagem de sonho não possui significado fixo. Ela pode, por exemplo, participar de repertórios culturais e, na teoria de Carl Gustav Jung, relacionar-se a motivos arquetípicos. Ainda assim, sua presença não basta para concluir que serpente significa transformação, perigo, sexualidade ou qualquer outra coisa. Jung, por sua vez, valorizava o contexto do sonhador e suas associações pessoais.

A PsicoSistemoLogia, por sua vez, acrescenta uma pergunta situada: o que acontece, neste momento, com a pessoa cuja experiência é investigada, chamada de Portador na PSL? Por isso, perguntar pelo significado de imagem de sonho pressupõe uma resposta única, o que ainda precisa ser verificado. Assim, o interesse recai sobre a experiência organizada ao redor da imagem.

Arquétipo não é uma imagem pronta

No entanto, na teoria junguiana, o arquétipo não é uma fotografia universal armazenada na mente. Jung, portanto, propôs o arquétipo como uma forma ou possibilidade de representação que só pode ser reconhecida por suas manifestações. A imagem arquetípica, assim, é uma dessas manifestações, já atravessada pela história individual e pela cultura.

Por isso, essa distinção importa. Pessoas de diferentes lugares podem, por exemplo, sonhar com casas, animais, travessias, figuras maternas ou crianças, mas a recorrência do motivo não entrega uma interpretação pronta. Segundo Jung, a forma arquetípica não seria predeterminada em conteúdo; ela poderia, ainda assim, atualizar-se de maneiras variadas.

Imagem, símbolo e arquétipo não são sinônimos

Além disso, também convém distinguir imagem e símbolo. Em Tipos psicológicos, por exemplo, Jung chama de símbolo uma formulação capaz de expressar algo ainda desconhecido ou apenas parcialmente conhecido. Portanto, nem toda imagem onírica precisa ser classificada de antemão como símbolo em sentido técnico. Antes de tudo, é necessário observar que lugar ela ocupa para quem sonhou. Por isso mesmo, reduzir o significado de imagem de sonho a uma tabela de equivalências simplifica demais a questão.

Jung também recusava significados fixos

Seria impreciso, contudo, opor um Jung interessado apenas no universal a uma PSL interessada apenas no singular. Pelo contrário, em seus seminários sobre sonhos, Jung afirma que as imagens oníricas devem, em regra, ser tratadas como criações individuais, sem significado fixo. Seu método, assim, começava pela investigação minuciosa do contexto e pelas associações da própria pessoa.

Ainda assim, quando as associações pessoais pareciam insuficientes, Jung recorria à amplificação: aproximava a imagem de mitos, religiões, contos e outros materiais culturais. Essa ampliação, portanto, podia revelar paralelos coletivos, mas não deveria substituir o contexto individual nem transformar um repertório histórico em tabela de equivalências.

A PSL muda a unidade de investigação, não a cautela

A PSL trabalha nessa mesma cautela e muda, ainda assim, a unidade de investigação. Em vez de buscar principalmente a estrutura psíquica universal que explicaria a recorrência da imagem, ela descreve a organização relacional que se torna observável quando a imagem aparece. Corpo, Campo Relacional, Gesto, Tempo, Vínculo e Fluxo entram, então, na pergunta pelo significado de imagem de sonho.

A mesma serpente pode acompanhar gestos diferentes

Imaginemos, então, duas cenas hipotéticas, construídas apenas para ilustrar o raciocínio.

Duas cenas hipotéticas, duas respostas diferentes

Na primeira, uma mulher sonha repetidamente com uma serpente entrando em casa. Ela corre, então, para fechar portas e janelas. Em seguida, acorda com o coração acelerado e permanece alguns instantes verificando o quarto. Ao narrar o sonho, aperta as mãos e fala da urgência de impedir a entrada.

Na segunda cena, por outro lado, um homem também sonha com uma serpente dentro de casa. Sente medo, mas não foge. Ao contrário, abre espaço e observa o animal trocar de pele. Em seguida, quando conta o sonho, sua respiração desacelera e ele fala de curiosidade.

Nota sobre o exemplo: as duas cenas acima são hipotéticas, construídas para fins didáticos, e não descrevem nenhuma pessoa real ou atendimento clínico específico.

A semelhança da imagem não garante a semelhança do gesto.

Um símbolo semelhante, gestos distintos

Essas cenas, ainda assim, não permitem diagnosticar nenhuma das pessoas. Tampouco provam que a primeira esteja evitando intimidade ou que a segunda esteja pronta para uma transformação. Elas mostram, ao contrário, algo mais modesto e útil: uma figura semelhante pode acompanhar movimentos distintos. Assim, em um relato aparecem vigilância, fechamento e tentativa de controle; no outro, medo, permanência e observação.

A semelhança do símbolo, portanto, não garante a semelhança do gesto.

O que a PSL chama de leitura situada

Na linguagem fenomenológica, alguém pode perguntar “o que essa imagem faz aqui?”. Ainda assim, a formulação é expressiva, desde que não atribua intenção própria à imagem. No registro operacional, por sua vez, a pergunta significa outra coisa: o que acontece com o Portador quando ele percebe, recorda ou narra essa imagem de sonho?

O Campo Relacional situa, não decide

O Campo Relacional é o constructo descritivo usado pela PSL para situar relações, posições e condições relevantes de uma experiência. Ele não é, portanto, uma entidade que envia sonhos, escolhe símbolos ou revela mensagens. Situar uma imagem no Campo Relacional consiste, assim, em investigar onde ela apareceu, com quem a pessoa estava envolvida, que conflitos ou transições estavam presentes e quais respostas se tornaram disponíveis ou indisponíveis.

O Terapeuta Psicosistêmico, por isso, não precisa ocupar o lugar de decifrador privilegiado. Ainda assim, pode conhecer repertórios simbólicos e usá-los para ampliar perguntas, mas não para encerrar o sentido antes que a experiência do Portador seja ouvida.

O corpo participa sem confirmar a interpretação

Uma imagem de sonho pode ser vivida com aceleração cardíaca, mudança de respiração, tensão muscular, choro ou sensação de repouso. Essas respostas, assim, ajudam a acompanhar a experiência. Ainda assim, não formam um dicionário corporal.

Mãos contraídas, por exemplo, não provam controle. Da mesma forma, um aperto no peito não confirma luto. Calor no rosto, igualmente, não estabelece vergonha. Cada sinal, portanto, precisa ser considerado junto do relato, da situação e de sua recorrência. Assim, o corpo oferece dados para a investigação, não um selo de verdade para a interpretação escolhida pelo terapeuta.

O que a pesquisa sobre sonhos permite dizer

Há pesquisas, ainda assim, que examinam relações entre sonhos e vida desperta. Em um estudo longitudinal com 28 participantes, por exemplo, Pesant e Zadra encontraram associações entre bem-estar relatado e características afetivas e relacionais dos sonhos ao longo do tempo. O resultado, portanto, foi compatível com a hipótese de continuidade entre preocupações despertas e conteúdo onírico.

Nota epistemológica: o alcance desse estudo é limitado por seu tamanho amostral. Ele não estabelece que cada imagem corresponda a um fato da vida nem que existam significados universais; mostra apenas que há, em alguns casos, alguma continuidade entre a vida desperta e o conteúdo onírico.

Tempo, Vínculo e Fluxo refinam o significado de imagem de sonho

A Tríade TVF reúne, enfim, três eixos de observação da PSL: Tempo, Vínculo e Fluxo.

No Tempo, então, interessa perceber se a imagem aproxima uma experiência passada, participa de uma transição atual ou antecipa uma possibilidade imaginada. A casa da infância, por exemplo, pode aparecer intacta, destruída ou reformada. O dado relevante, contudo, não está apenas na casa, mas na relação presente do Portador com aquela história.

No Vínculo, por sua vez, observam-se as posições relacionais. Afinal, quem se aproxima? Quem se afasta? Há busca, vigilância, dependência, disputa ou separação possível? Duas pessoas, por exemplo, podem sonhar com um pai falecido e ocupar lugares diferentes diante dele.

Fluxo: o que a imagem favorece depois

No Fluxo, por fim, a pergunta recai sobre o que ocorre depois. A imagem ajuda a nomear algo, favorece uma conversa ou amplia escolhas? Ou, ao contrário, passa a funcionar como destino, justificativa para evitar decisões e confirmação de uma interpretação fechada? Intensidade simbólica, por si só, não demonstra reorganização.

Arquétipo não é Gesto Fundante

Arquétipo e Gesto Fundante (GF), portanto, pertencem a arquiteturas teóricas distintas. Na hipótese junguiana, o arquétipo diz respeito a formas universais do inconsciente coletivo, inclusive quando aparece numa imagem de sonho. Já na PSL, por sua vez, o GF é um constructo voltado à investigação de uma organização relacional recorrente e singular.

Os critérios PIGF evitam a confirmação apressada

Uma imagem arquetípica pode, sim, aparecer quando uma hipótese de GF está sendo investigada. Isso não torna, porém, os conceitos equivalentes. Afinal, um sonho isolado, mesmo intenso, não confirma GF. Pelos critérios PIGF, é necessária recorrência transversal em pelo menos três domínios da vida, acompanhada por outros indicadores afetivos, relacionais ou temporais. LE4, além disso, permanece válido: nem todo Portador apresenta um GF dominante identificável.

O mesmo limite, enfim, vale para os Gestos Orbitantes. Uma imagem pode acompanhar uma resposta recorrente, mas não deve ser convertida automaticamente em GO. É preciso examinar, ainda, repetição, contexto, função e relação com a hipótese fundante.

Os Dois Registros preservam a experiência e o limite

No Registro Fenomenológico-Simbólico, diante de uma imagem de sonho, uma pessoa pode dizer: “a serpente trouxe algo antigo”, “a casa era eu” ou “a criança parecia pedir cuidado”. Essas frases, assim, pertencem ao modo como a experiência foi vivida. Podem, assim, abrir associações e linguagem onde antes havia silêncio.

No Registro Científico-Operacional, por sua vez, investigam-se o relato do sonho, as associações apresentadas, o estado corporal, o contexto de vida e eventuais mudanças observáveis. Esses dados, então, podem ser descritos e comparados. Ainda assim, não demonstram, sozinhos, a existência de um arquétipo universal, de um Gesto Fundante ou de uma causalidade exercida pelo Campo Relacional.

Nota dos Dois Registros: as expressões do parágrafo fenomenológico nomeiam a experiência vivida; não descrevem, por si só, um mecanismo causal comprovado.

Dois empobrecimentos que os registros evitam

Manter os registros distintos evita, enfim, dois empobrecimentos. Por um lado, o primeiro seria reduzir uma imagem viva a um código. Por outro lado, o segundo seria transformar sua força subjetiva em prova factual.

Devolver o símbolo ao Portador

Perguntas para investigar o significado de imagem de sonho

Uma leitura situada, enfim, começa perto da experiência. Algumas perguntas ajudam a sustentar essa investigação:

  • O que você percebe quando a imagem aparece?
  • O que você faz diante dela?
  • Quem está presente nesse momento?
  • Esse movimento lhe é familiar?
  • Onde ele reaparece em sua vida?
  • O que mudou desde a última ocorrência?

O cuidado é não decidir cedo demais

As respostas podem, assim, aproximar associações pessoais, relações atuais e referências culturais. Ainda assim, nenhuma dessas camadas precisa ser descartada de antemão. O cuidado está, sobretudo, em não decidir cedo demais qual delas contém o significado de imagem de sonho.

Jung, enfim, oferece uma linguagem para pensar a profundidade e a recorrência de certas imagens. A PSL, por sua vez, acrescenta critérios para observar como uma imagem participa de uma experiência relacional concreta. Afinal, a diferença decisiva não está em trocar um dicionário por outro: está em devolver o símbolo ao Portador e acompanhar o que se torna visível em sua maneira de responder.

Referências

  • JUNG, C. G. Psychological Types. Collected Works, v. 6, especialmente §§ 814-817. Princeton University Press, 1971. Resumo acadêmico da IAAP.
  • JUNG, C. G. The Archetypes and the Collective Unconscious. Collected Works, v. 9, parte 1. 2. ed. Princeton University Press, 1968. Edição no JSTOR.
  • JUNG, C. G. Dream Symbols of the Individuation Process: Notes of C. G. Jung’s Seminars on Wolfgang Pauli’s Dreams. Editado por Suzanne Gieser. Princeton University Press, 2019.
  • JUNG, C. G. “On the Method of Dream Interpretation”. In: Children’s Dreams: Notes from the Seminar Given in 1936-1940. Editado por Lorenz Jung e Maria Meyer-Grass. Princeton University Press, 2008.
  • PESANT, N.; ZADRA, A. Dream Content and Psychological Well-Being: A Longitudinal Study of the Continuity Hypothesis. Journal of Clinical Psychology, v. 62, n. 1, p. 111-121, 2006. DOI: 10.1002/jclp.20212.