Na hora de dormir, uma criança procura a ponta gasta de uma manta. O tecido não fala, não responde e não ocupa o lugar de quem cuida. Ainda assim, participa de uma passagem: a presença não precisa ser imediata para que toda continuidade desapareça. Essa cena é o ponto de partida para compreender o objeto transicional em Winnicott.
Além disso, Donald Winnicott chamou de objeto transicional uma primeira posse “não-eu” ligada ao desenvolvimento infantil. Por isso, ela ocupa uma área intermediária entre experiência subjetiva e realidade compartilhada. Ainda assim, não é qualquer objeto preferido, não substitui a pessoa cuidadora e não oferece um modelo para classificar automaticamente objetos afetivos de adultos. Nesse sentido, este artigo dá continuidade ao que já foi discutido em Mãe suficientemente boa em Winnicott: cuidado sem perfeição, em Holding em Winnicott: sustentar sem criar dependência e em Handling em Winnicott: cuidado corporal não é interpretação.
O que é objeto transicional em Winnicott
Dessa forma, no ensaio de 1953, Winnicott descreve objetos macios ou equivalentes que alguns bebês passam a usar de modo singular. Por outro lado, uma manta, um pano ou outro item pode ser acariciado, mordido, carregado e procurado em momentos de repouso ou separação.
Assim, o interesse do autor não recai apenas sobre a coisa material. Também, importa a relação que a criança estabelece com ela e a posição intermediária que o objeto ocupa.
Consequentemente, essa é uma formulação psicanalítica do amadurecimento. Em outras palavras, não se trata de uma variável isolada ou de um mecanismo biológico comprovado.
Nem todo objeto preferido é transicional
Portanto, uma criança pode gostar muito de um brinquedo sem que ele exerça a função descrita por Winnicott. Também pode receber um item escolhido por um adulto e nunca investir nele esse uso particular.
Da mesma forma, cor, maciez ou preço não definem o fenômeno. Nesses casos, a intensidade do choro quando o objeto falta tampouco basta para classificá-lo.
Por esse motivo, o conceito exige atenção à trajetória, ao modo de uso e ao lugar que o item ocupa na relação entre dependência, separação e realidade externa.
A primeira posse não-eu no objeto transicional em Winnicott
Diante disso, Winnicott chamou o objeto transicional de primeira posse “não-eu”. Mesmo assim, a expressão indica que o objeto é vivido com forte investimento subjetivo, mas existe fora do corpo e não se reduz a uma imagem mental.
Ao mesmo tempo, isso não significa que o bebê formule conscientemente uma distinção filosófica entre eu e mundo. De todo modo, o termo pertence ao modelo teórico do autor.
Nesse ponto, pouco a pouco, algo pode ser possuído e usado sem ficar inteiramente submetido à experiência de onipotência. Por essa razão, essa passagem é central para o objeto transicional em Winnicott.
Entre criar e encontrar
Nessa direção, na área transicional, Winnicott preserva um paradoxo: não se exige decidir se o objeto foi criado pela experiência da criança ou encontrado na realidade. Por conta disso, as duas dimensões permanecem em tensão.
Além disso, essa suspensão não apaga o mundo material. Por isso, o objeto tem textura, resistência e limites próprios. Ao mesmo tempo, recebe um significado que não pode ser explicado apenas por suas propriedades físicas.
Ainda assim, a experiência subjetiva ganha espaço sem se tornar dona de toda a realidade.
O objeto não substitui quem cuida
Nesse sentido, o objeto pode acompanhar uma separação, mas não ocupa literalmente o lugar da mãe, do pai ou de outra pessoa cuidadora. Dessa forma, na formulação de Winnicott, seu uso depende de uma experiência ambiental suficientemente confiável.
Por outro lado, uma manta não corrige negligência. Assim, um brinquedo não compensa violência nem produz sozinho continuidade onde o cuidado permanece imprevisível.
Também, transformar o objeto em solução para qualquer ausência desloca a responsabilidade das pessoas e das condições concretas de cuidado.
A função do objeto transicional em Winnicott depende do uso
Consequentemente, dois objetos iguais podem ter funções muito diferentes. Em outras palavras, um permanece entre outros brinquedos. Portanto, o segundo acompanha sono, deslocamentos e reencontros, dentro de um padrão construído pela própria criança.
Da mesma forma, a função também pode mudar. Nesses casos, o item que hoje concentra grande importância talvez perca centralidade à medida que outros interesses e formas de relação se ampliam.
Por isso, observar um objeto fora de sua história produz pouco conhecimento.
Nem toda criança terá um objeto identificável
Por esse motivo, Winnicott escreveu que um objeto macio ou equivalente é frequentemente encontrado. “Frequentemente” não significa “sempre”. Diante disso, essa ressalva orienta a leitura do objeto transicional em Winnicott aqui proposta.
Mesmo assim, algumas crianças podem apresentar fenômenos transicionais sem um item único e evidente. Ao mesmo tempo, outras não terão um objeto que adultos consigam reconhecer dessa maneira.
De todo modo, não localizar um exemplar não confirma falha ambiental, atraso ou ausência de vínculo. Nesse ponto, o conceito não deve virar uma lista de desenvolvimento obrigatório.
Ausência e abandono não são sinônimos
Por essa razão, o fenômeno transicional ajuda Winnicott a pensar como a ausência imediata pode deixar de significar desaparecimento total. Nessa direção, um intervalo torna-se suportável dentro de uma história de cuidado e retorno.
Mesmo assim, isso não permite afirmar que todo sofrimento de separação resulte de uma etapa infantil. Além disso, distância atual, acordos rompidos, perdas e risco real também importam.
Por isso, na vida adulta, a pergunta mais segura começa no presente: o que foi combinado, o que aconteceu e quais recursos estão disponíveis agora?
Objeto transicional em Winnicott: autonomia não se ensina confiscando
Ainda assim, retirar o objeto à força para provar que uma criança “já cresceu” contradiz a lógica gradual do conceito. Nesse sentido, perder centralidade é diferente de ser arrancado.
Dessa forma, isso não significa que qualquer uso deva permanecer intocado em qualquer circunstância. Por outro lado, higiene, segurança, sofrimento intenso e prejuízo funcional podem exigir avaliação e acordos apropriados à idade.
Assim, o ponto é simples: humilhação e punição não demonstram autonomia.
Marcas de uso podem fazer parte da continuidade
Também, objetos transicionais costumam ficar gastos. Consequentemente, cheiro, textura e pequenas marcas podem participar de seu reconhecimento. Em outras palavras, substituir o item por outro “igual” talvez não preserve a mesma experiência.
Ainda assim, nenhuma regra universal decorre disso. Portanto, cuidar da higiene e da segurança pode exigir mudanças conduzidas com atenção à reação da criança. Da mesma forma, o objeto transicional em Winnicott continua sendo, nesses casos, um recurso em transformação.
Nesses casos, continuidade não significa imobilidade. Por esse motivo, o objeto, o uso e a criança mudam com o Tempo.
Objetos afetivos de adultos não são equivalentes automáticos
Diante disso, uma carta, uma fotografia, uma peça de roupa ou uma música pode ter enorme importância para um adulto. Mesmo assim, pode evocar pertencimento, facilitar uma mudança ou acompanhar um período difícil.
Ao mesmo tempo, esse valor não transforma o item, por definição, em objeto transicional winnicottiano. De todo modo, a analogia pode iluminar uma função de passagem, desde que permaneça uma analogia.
Nesse ponto, preservar a diferença evita usar um conceito infantil como rótulo para toda relação afetiva com objetos.
Objeto transicional em Winnicott e memória
Por essa razão, um objeto associado a alguém pode trazer lembranças, imagens e sensações. Nessa direção, a experiência pode ser intensa sem que a pessoa esteja literalmente contida no item.
Ao mesmo tempo, na leitura PSL, não é necessário supor energia armazenada para respeitar esse efeito. Além disso, associação, história compartilhada e significado vivido oferecem uma descrição suficiente para o que está sendo experimentado.
Por isso, o objeto evoca. Ainda assim, não age nem garante proteção.
Repetição não é diagnóstico
Nesse sentido, usar sempre o mesmo travesseiro, carregar uma lembrança ou preferir determinada rotina pode ser apenas uma escolha. Dessa forma, em outros casos, a ausência do recurso acompanha sofrimento ou limitação importante.
Por outro lado, forma e frequência não resolvem a diferença. Assim, é preciso examinar flexibilidade, contexto, alternativas, consequência e impacto na vida.
Também, chamar o recurso de “objeto transicional patológico” fecha cedo demais uma investigação que pode envolver muitos processos distintos. Consequentemente, o objeto transicional em Winnicott permanece, assim, um conceito descritivo.
Autonomia não exige ausência de dependência
Em outras palavras, na vida adulta, autonomia não significa nunca pedir, esperar ou receber. Portanto, significa poder participar das decisões e circular entre apoio e iniciativa própria.
Da mesma forma, uma pessoa pode consultar alguém sem entregar a ele a autorização final. Nesses casos, pode sentir falta sem exigir presença contínua. Também pode preferir companhia e ainda sustentar diferença. Por esse motivo, essa discussão dialoga com o que já foi tratado em Apego seguro: precisar do outro não impede autonomia.
Diante disso, a aproximação com Winnicott ajuda a pensar passagens. Mesmo assim, não prova que a organização adulta repita a infância.
O profissional não é objeto transicional em Winnicott
Ao mesmo tempo, o Terapeuta Psicosistêmico é uma pessoa real, com responsabilidade, limites e alteridade. De todo modo, chamá-lo de objeto transicional apaga a especificidade do conceito e empobrece a ética da relação.
Nesse ponto, o processo pode oferecer um contexto no qual o Portador testa uma resposta, formula um limite e leva essa experiência para outros Vínculos. Por essa razão, o êxito não se mede pela dependência produzida.
Nessa direção, a relação profissional precisa ampliar recursos fora dela, não concentrar toda possibilidade de ação em sua continuidade.
Campo Relacional não oferece nem retém objetos
Por conta disso, na PSL, Campo Relacional é um constructo descritivo para examinar pessoas, condições, regras e respostas. Além disso, ele não acolhe, ameaça, concede autonomia ou exige dependência.
Por isso, pessoas respeitam um objeto ou o retiram. Ainda assim, instituições definem normas. Nesse sentido, condições materiais tornam certos recursos disponíveis ou inacessíveis.
Dessa forma, manter a fonte da ação visível permite discutir responsabilidade sem transformar o Campo em personagem.
Objeto transicional em Winnicott não confirma GO nem GF
Por outro lado, guardar objetos, buscar confirmação ou resistir a uma separação pode ocorrer por razões distintas. Assim, um episódio isolado não confirma Gesto Orbitante, GO, nem Gesto Fundante, GF. Também, isso reforça que o objeto transicional em Winnicott não é, por si só, um critério diagnóstico.
Consequentemente, GO exige recorrência funcional em diferentes Campos. Em outras palavras, quando GF é uma hipótese, aplica-se o PIGF: CR1, Recorrência Transversal em pelo menos três domínios, é obrigatório; além dele, são necessários pelo menos dois critérios entre CR2, Carga Afetiva Associada; CR3, Impacto na Resposta Relacional em pelo menos 75% dos eventos críticos documentados; e CR4, Persistência Temporal em dois ou mais períodos.
Portanto, o significado atribuído a um objeto pode integrar a investigação. Da mesma forma, não substitui esses critérios.
Os Dois Registros evitam equivalências
Nesses casos, no Registro Fenomenológico-Simbólico, alguém pode dizer que um objeto “leva consigo um pedaço de casa”. Por esse motivo, a frase comunica continuidade, saudade ou pertencimento.
Diante disso, no Registro Científico-Operacional, descrevem-se o item, a situação, frequência de uso, resposta à ausência, flexibilidade, consequência, alternativas e exceções.
Mesmo assim, o segundo registro não corrige a experiência. Ao mesmo tempo, apenas impede que a imagem seja tratada como presença física, mecanismo comprovado ou diagnóstico.
Limites desta leitura
De todo modo, o objeto transicional não explica toda a personalidade ou toda dificuldade de separação, conforme LE1. Nesse ponto, sofrimento grave, sintomas obsessivo-compulsivos, acumulação, psicose, dissociação e outros quadros podem exigir avaliação especializada, conforme LE2.
Por essa razão, perda, migração, pobreza, violência, moradia, deficiência e acesso a recursos não podem ser reduzidos ao desenvolvimento inicial, conforme LE3. Nessa direção, pode não existir GF dominante, e a aproximação com Winnicott pode acrescentar pouco a certas trajetórias, conforme LE4.
Mesmo assim, este artigo apresenta um conceito histórico e uma leitura PSL. Além disso, não oferece diagnóstico de crianças, adultos ou relações.
Objeto transicional em Winnicott: crescer não exige apagar a ponte
Por isso, o objeto transicional ganhou força na obra de Winnicott porque descreve uma passagem sem exigir ruptura brusca. Ainda assim, algo da continuidade pode acompanhar a criança enquanto o mundo externo se torna mais reconhecível.
Nesse sentido, na PSL, essa imagem inspira uma pergunta limitada: um recurso ajuda o Portador a atravessar uma mudança com mais possibilidades de Gesto ou se tornou a única condição para agir? Dessa forma, é esse o valor central do objeto transicional em Winnicott nesta leitura.
Por outro lado, uma ponte não é o destino. Também não precisa ser destruída para provar que a travessia aconteceu.
Referências
- WINNICOTT, Donald W. Transitional Objects and Transitional Phenomena: A Study of the First Not-Me Possession. Texto de 1953 reunido em The Collected Works of D. W. Winnicott: Volume 4, 1952-1955. Oxford University Press, 2016. Acesso em: 21 set. 2026.
- WINNICOTT, Donald W. Transitional Objects and Transitional Phenomena. Versão de 1971 reunida em The Collected Works of D. W. Winnicott: Volume 9, 1969-1971. Oxford University Press, 2016. Acesso em: 21 set. 2026.
Nota editorial e clínica: este texto apresenta um conceito histórico e uma proposta de leitura PSL. Não oferece diagnóstico nem substitui avaliação psicológica, psiquiátrica, médica, social ou jurídica quando necessária.
