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Fundamentos da PSL

Modelos internos de funcionamento: expectativa não é realidade

Modelos internos de funcionamento orientam expectativas sobre disponibilidade e resposta. Eles não são fatos, destinos nem equivalentes a GO ou Gesto Fundante.

Modelos internos de funcionamento: expectativa não é realidade
Placa editorial da editoria Fundamentos da PSL.

Modelos internos de funcionamento é o nome dado a expectativas como esta: uma mensagem foi enviada pela manhã. Horas depois, ainda não há resposta. A pessoa continua trabalhando, mas volta ao telefone. Relê a conversa anterior. Uma hipótese começa a ganhar peso: “algo mudou entre nós”.

O silêncio permanece o mesmo. No entanto, o que mudou foi a expectativa que passou a orientar a cena.

Na teoria do apego, modelos internos de funcionamento são representações e expectativas sobre a disponibilidade de figuras importantes e sobre a possibilidade de obter resposta delas. Também essas expectativas podem orientar percepção e planejamento. Não são fatos, diagnósticos nem destinos.

De onde vem o conceito

John Bowlby desenvolveu a noção de modelos internos de funcionamento ao formular como experiências com figuras de apego poderiam participar da previsão de acontecimentos relacionais. Além disso, em Separation: Anxiety and Anger, segundo volume de Attachment and Loss, ele discute expectativas sobre disponibilidade, separação e resposta das figuras importantes.

Em 1985, Mary Main, Nancy Kaplan e Jude Cassidy propuseram um deslocamento da pesquisa para o nível da representação. De fato, esse desenvolvimento ampliou a investigação para além do comportamento imediatamente visível.

Representação, aqui, não é uma gravação fiel da infância. Também não é uma essência escondida. Trata-se de um constructo teórico usado para investigar como experiências podem participar de expectativas sobre si em relação a pessoas importantes.

Modelos internos de funcionamento envolvem o outro e a possibilidade de obter resposta

Uma criança pode encontrar disponibilidade em muitas situações de necessidade. No entanto, outra pode receber respostas difíceis de antecipar. Ao longo do tempo, essas experiências podem participar de expectativas diferentes sobre o que acontecerá quando houver medo, separação ou pedido de ajuda.

Bowlby relacionou modelos internos de funcionamento da figura de apego a modelos de si. Contudo, essa segunda expressão pede cuidado. Não significa que a teoria atribua uma nota global ao valor humano. A pergunta é mais situada: nesta relação, a pessoa espera que seu pedido seja percebido e que alguma resposta esteja disponível?

Frases como “sou um peso” ou “preciso intensificar para ser ouvido” podem ajudar a traduzir uma experiência. Nesse sentido, são aproximações didáticas. O modelo não precisa existir como sentença silenciosa que a pessoa repete dentro da cabeça.

O mapa dos modelos internos de funcionamento é uma metáfora, não uma anatomia

Chamar os modelos internos de funcionamento de “mapa” pode ser útil. De fato, um mapa destaca caminhos prováveis, antecipa obstáculos e orienta decisões. Mas não reproduz o território inteiro.

Também não existe um único mapa imutável para todas as relações. Expectativas podem variar conforme a pessoa, a posição ocupada e o contexto. Alguém pode pedir ajuda com facilidade a um amigo e sentir vergonha de fazê-lo no trabalho. Pode confiar no parceiro em assuntos cotidianos e temer ruptura durante conflitos.

O mapa não age. Em vez disso, a pessoa percebe uma situação, recorda experiências, antecipa possibilidades e responde com os recursos disponíveis. Parte desse processo pode ocorrer sem formulação verbal consciente, mas isso não autoriza o observador a inventar um significado oculto.

Modelos internos de funcionamento: expectativa não é prova sobre o presente

Voltemos à mensagem sem resposta. A demora pode ocorrer porque a outra pessoa está em reunião, dirigindo ou longe do telefone. Também pode fazer parte de uma relação marcada por desaparecimentos, ameaças e silêncio usado como controle.

Uma leitura rigorosa dos modelos internos de funcionamento sustenta duas perguntas: que expectativa a situação despertou e que evidência existe sobre a relação atual? Se tudo for atribuído ao passado, um risco presente pode ser invalidado. Nesse sentido, se toda impressão for tomada como fato, a participação da história deixa de ser examinada.

Antes de concluir, é preciso observar duração, acordos, mudanças recentes, padrão de comunicação e consequências. Ademais, expectativa é dado sobre a experiência. Não é veredito sobre a intenção do outro.

O corpo participa, mas não decide

A expectativa pode vir acompanhada de aperto, calor, inquietação, mudança respiratória ou impulso de agir. Dessa forma, o corpo participa da experiência antes que uma explicação esteja pronta.

Esses sinais são inespecíficos. Não comprovam abandono, rejeição, modelos internos de funcionamento, estilo de apego, GO ou GF. Também não indicam por si mesmos se alguém deve aproximar-se, esperar ou sair de uma relação.

Na PSL, dados corporais ganham sentido quando comparados com situação, relato, recorrência e consequência. Assim, o corpo informa que algo se tornou relevante. A investigação ainda precisa descobrir o quê.

Interações podem parecer confirmar a expectativa

Imagine alguém que teme rejeição e interpreta uma fala ambígua como crítica. Por isso, responde de modo defensivo. A outra pessoa, sentindo-se atacada, encerra a conversa. O afastamento posterior pode parecer confirmação da expectativa inicial.

Essa descrição não permite dizer que o primeiro participante “criou” a rejeição. A outra pessoa tem história, escolhas e responsabilidade. Podem existir assimetrias, coerção ou agressão. Também é possível que a resposta defensiva tenha alterado a interação seguinte.

A circularidade dos modelos internos de funcionamento é uma hipótese sobre sequência, não uma sentença de culpa. Ainda assim, convém documentar o que cada pessoa fez, em que ordem, sob quais condições e com que efeito.

Modelos internos de funcionamento não equivalem a Gesto

Os modelos internos de funcionamento pertencem à teoria do apego. Gesto é um constructo da PsicoSistemoLogia. Ainda assim, os dois podem dialogar sem se tornarem sinônimos.

Na PSL, a descrição começa pelo que aconteceu: a mensagem demorou, o Portador verificou o telefone, enviou outro texto e interrompeu o trabalho. Assim, uma hipótese de Gesto reúne essa resposta, a posição relacional, o contexto e as consequências. A função não é deduzida apenas da crença atribuída à pessoa.

Intenção, expectativa e efeito também podem divergir. Uma mensagem enviada para recuperar proximidade talvez produza conflito. Outra, escrita para comunicar urgência, pode de fato obter ajuda. A forma semelhante não garante a mesma função.

Modelos internos de funcionamento não confirmam GO ou GF

Verificar, explicar-se, agradar, controlar ou afastar-se não é Gesto Orbitante por definição. Ademais, uma hipótese de GO exige sequência recorrente, função relativamente estável, custos, alternativas e comparação entre contextos. Em uma relação atualmente insegura, a resposta pode estar ligada a fatos presentes.

Modelos internos de funcionamento também não identificam Gesto Fundante. O PIGF exige CR1, recorrência em pelo menos três domínios, mais ao menos dois dos critérios seguintes: CR2, carga afetiva ou somática; CR3, impacto em pelo menos 75% dos eventos críticos documentados; e CR4, persistência em dois ou mais períodos.

Conforme LE4, pode não haver GF dominante identificável. Além disso, conforme LE1, um modelo, GO ou GF não explica a personalidade inteira.

Continuidade existe, mas não funciona como destino

Um estudo longitudinal de vinte anos começou com 60 bebês brancos de classe média avaliados pela Situação Estranha. Assim, cinquenta foram reavaliados na vida adulta por meio da Adult Attachment Interview. Entre eles, 72% mantiveram a classificação ampla seguro versus inseguro, e mudanças foram mais frequentes quando ocorreram eventos de vida negativos.

Outro estudo com 57 jovens adultos de uma amostra selecionada por pobreza e alto risco não encontrou continuidade significativa entre infância e vida adulta. De fato, maus-tratos, depressão materna e funcionamento familiar na adolescência diferenciaram trajetórias de continuidade e mudança nessa amostra.

Os estudos usaram medidas diferentes de modelos internos de funcionamento na infância e na vida adulta e não mediram diretamente um “mapa” guardado dentro das pessoas. Ainda assim, lidos juntos, sustentam uma conclusão cautelosa: pode haver continuidade, mas experiência e contexto continuam relevantes.

Reorganizar não é trocar uma frase por outra

Dizer “as pessoas são confiáveis” não torna todas as pessoas confiáveis. Também repetir “eu mereço cuidado” pode ter valor pessoal, mas não altera sozinho uma relação indisponível nem demonstra reorganização.

Na PSL, mudança pode ser investigada quando o Portador discrimina, em seus modelos internos de funcionamento, expectativa e evidência com maior precisão. Assim, talvez consiga pedir ajuda a alguém que já se mostrou disponível, esperar antes de concluir que houve ruptura ou reconhecer mais cedo uma relação coerciva. A expectativa antiga pode aparecer sem determinar a resposta seguinte.

Essa formulação é interna ao modelo PSL. Além disso, não constitui prova de eficácia terapêutica nem substitui abordagens validadas para uma condição clínica específica.

Tempo, Vínculo e Fluxo ajudam a documentar mudança

Em Tempo, comparam-se os modelos internos de funcionamento em situações anteriores e atuais: a mesma expectativa aparece? Sob quais condições? O que mudou entre os períodos? Em Vínculo, observam-se posições, pertencimento, reciprocidade, limites e assimetrias. Além disso, em Fluxo, registram-se ações que se tornaram possíveis ou permanecem interrompidas.

O Campo Relacional descreve participantes, regras, ambiente, recursos, riscos e consequências. Contudo, o Campo não confirma nem corrige expectativas. Pessoas oferecem respostas que podem ou não corresponder ao que o Portador antecipou.

Conforme LE3, pobreza, racismo, desigualdade de gênero, migração, deficiência, violência e trabalho precário afetam disponibilidade e segurança. Por isso, esses fatores não devem ser convertidos em “mapa interno” individual.

O terapeuta não fornece um mapa pronto

O Terapeuta Psicosistêmico não promete que ninguém abandonará o Portador, não ensina que todas as pessoas são boas e não define qual relação merece confiança. Dessa forma, um novo mapa universal seria tão impreciso quanto o anterior.

O trabalho pode apoiar comparação entre os modelos internos de funcionamento do Portador e a evidência, documentação de sequências e experimentação de respostas. Além disso, a decisão sobre proximidade, limite ou saída precisa respeitar realidade, direitos e consentimento.

Conforme LE2, a PSL não é abordagem primária para esquizofrenia, TEA, psicose ativa ou dissociação grave. Também não substitui avaliação diagnóstica, cuidado indicado ou medidas de proteção diante de violência e risco.

Os Dois Registros preservam o alcance dos modelos internos de funcionamento

No Registro Fenomenológico-Simbólico, o Portador pode dizer: “quando ninguém responde, parece que deixo de existir para o outro”. Nesse sentido, a frase comunica a força da experiência. Não precisa ser tratada como fato literal.

No Registro Científico-Operacional, a teoria do apego investiga representações por conceitos, entrevistas e medidas próprias. Também a PSL registra situação, resposta, frequência, posição e consequência para testar hipóteses de Gesto. Uma medida de apego não demonstra GO ou GF; uma narrativa significativa não confirma modelos internos de funcionamento.

Expectativas ajudam a pessoa a não começar cada encontro do zero. O custo aparece quando uma previsão ocupa o lugar da investigação. O passado pode oferecer um mapa provisório. Ainda assim, o caminho presente precisa ser observado passo a passo.

Referências