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Gestos e Padrões

É preciso lembrar a origem de um padrão para mudá-lo?

Descubra por que lembrar a origem de um padrão nem sempre é necessário: veja como a PSL investiga repetições no corpo e no vínculo sem inventar cenas.

É preciso lembrar a origem de um padrão para mudá-lo?
Placa editorial da editoria Gestos e Padrões.

Nem sempre lembrar a origem de um padrão é possível: nem toda reação intensa vem acompanhada de uma memória capaz de explicá-la. Às vezes, por exemplo, o corpo se contrai, a voz muda e uma resposta conhecida aparece antes que a pessoa compreenda o que aconteceu. Quando procura uma origem, porém, ela não encontra uma cena decisiva: encontra apenas a repetição.

É preciso, então, recuperar a lembrança que teria iniciado o padrão para poder transformá-lo? Não necessariamente.

Por que lembrar a origem de um padrão nem sempre é necessário

Por exemplo, uma memória pode ser importante quando surge no relato e encontra apoio em outras informações. Mas a PsicoSistemoLogia, por outro lado, não precisa supor uma cena esquecida para começar a trabalhar. Assim, ela pode investigar como a experiência se organiza hoje, em quais relações a resposta aparece, que função o gesto parece cumprir e se outras possibilidades começam a se tornar disponíveis.

O inconsciente pessoal na cartografia de Jung

Assim, Carl Gustav Jung diferenciou uma camada pessoal do inconsciente de outra que chamou de coletiva. Além disso, em sua formulação, o inconsciente pessoal reúne materiais ligados à vida do indivíduo. Entre eles podem estar, por exemplo, conteúdos esquecidos, reprimidos ou que poderiam tornar-se conscientes, ainda que não estejam presentes à consciência naquele momento (CW 7, § 218).

Ou seja, essa é uma descrição pertencente à Psicologia Analítica. Ela ajudou, portanto, a questionar a ideia de que a vida psíquica se limita ao que o ego percebe e controla.

Os limites da comparação com a memória contemporânea

Ainda assim, também exige cuidado histórico. O inconsciente pessoal de Jung, no entanto, não é sinônimo de memória não declarativa, aprendizagem implícita ou resposta condicionada. Por isso, esses conceitos surgem em tradições teóricas e experimentais diferentes. Aproximá-los pode abrir perguntas; ainda assim, tratá-los como equivalentes apagaria diferenças importantes.

O que fazer quando a narrativa não aparece

Investigar o presente da resposta não exige, de início, lembrar a origem de um padrão.

Imagine, por exemplo, uma profissional que recebe uma observação simples da supervisora: “Podemos rever este trecho?”. Antes de avaliar o conteúdo, por exemplo, ela sente o peito apertar. Assim, começa a explicar cada decisão, fala depressa e acrescenta justificativas que ninguém havia pedido.

Minutos depois, no entanto, percebe que a observação era rotineira. Sabe, portanto, que a reação foi maior do que a situação parecia exigir. Mesmo assim, não encontra uma lembrança específica que explique por que uma correção profissional produz tanta urgência.

Perguntas que abrem a investigação sem preencher a lacuna

A investigação pode começar, ainda assim, sem completar essa lacuna. Por exemplo: o que acontece primeiro no corpo? Além disso, em quais relações essa resposta aparece? Por sua vez, o que ela tenta evitar quando explica tudo de uma vez? O que pareceria acontecer, por exemplo, se escutasse a observação antes de se justificar?

Nota sobre o exemplo. Ou seja, a cena é hipotética e não descreve um diagnóstico. Assim, uma resposta defensiva isolada não confirma trauma, memória reprimida, Gesto Fundante ou qualquer transtorno.

Não lembrar não prova que uma cena foi reprimida

Não lembrar a origem de um padrão, ou seja, a ausência de lembrança não é evidência de que um acontecimento específico esteja escondido. Também não autoriza, portanto, o terapeuta a preencher o espaço com uma hipótese apresentada como fato.

Por exemplo, perguntas como “o que você associa a essa reação?” ou “alguém específico vem à mente?” mantêm a investigação aberta. Tornam-se problemáticas, no entanto, quando carregam uma resposta pronta: “isso só pode significar que alguém a humilhou” ou “você deve ter esquecido o que aconteceu”.

A memória reconstrutiva exige cautela clínica

Assim, a memória autobiográfica é reconstrutiva. Pesquisas mostram, por exemplo, que sugestões, imaginação guiada e falsas informações podem influenciar crenças e recordações. Ainda assim, isso não significa que toda lembrança recuperada seja falsa. Significa, ainda assim, que sua origem não pode ser determinada apenas pela intensidade, pela nitidez ou pela convicção de quem recorda.

Por isso, o Terapeuta Psicosistêmico deve acolher o relato sem assumir antecipadamente que o acontecimento ocorreu ou não ocorreu. Quando a precisão factual é importante, por sua vez, a lembrança precisa ser distinguida de interpretação e, sempre que possível, examinada com evidências independentes.

O corpo participa sem funcionar como arquivo autobiográfico

Assim, uma pessoa pode apresentar mudanças de tensão, respiração, atenção e impulso antes de conseguir narrar o que a mobilizou. Isso não significa, contudo, que cada tecido armazene uma história completa ou que uma sensação corporal revele, por si, a origem de um padrão.

Memória declarativa e não declarativa não se confundem

Por sua vez, a pesquisa contemporânea distingue a memória declarativa, que permite recordar fatos e acontecimentos, de um conjunto heterogêneo de formas não declarativas, como habilidades, hábitos, condicionamento e pré-ativação, também chamada de priming. Algumas aprendizagens, por exemplo, podem ser expressas no desempenho sem exigir recordação consciente do episódio em que foram adquiridas.

Assim, esse conhecimento sustenta uma afirmação delimitada: experiência anterior pode influenciar respostas atuais sem aparecer como lembrança autobiográfica explícita. Ele não permite, portanto, decifrar uma biografia a partir de uma postura, de uma tensão ou de um sintoma corporal.

O contexto relacional ajuda a localizar a repetição

Por exemplo, talvez a profissional receba sugestões de colegas sem se alterar, mas se justifique imediatamente diante de pessoas que ocupam uma posição de autoridade. Essa diferença, portanto, importa.

Perguntas que o contexto relacional ajuda a formular

Mesmo sem lembrar a origem de um padrão, o Campo Relacional é o contexto situado em que história, expectativas, sinais do outro e posições no vínculo ganham sentido. No entanto, não é uma força invisível nem uma entidade que produz a resposta. Observar o contexto ajuda, assim, a formular perguntas mais precisas: diante de quem a correção se torna ameaça? Por outro lado, quando uma revisão é apenas uma revisão? Além disso, em que relações ela parece colocar pertencimento, competência ou lugar em risco?

Ou seja, a resposta não precisa estar apenas “dentro” da pessoa. Ela pode depender, ao contrário, da configuração concreta em que aquela forma de responder é vivida como necessária.

Lembrar a origem de um padrão não é o mesmo que entender o gesto

Por exemplo, justificar-se rapidamente pode tentar reduzir o risco de desaprovação. Explicar cada detalhe, por exemplo, pode tentar preservar uma imagem de competência. Da mesma forma, concordar antes de pensar pode tentar proteger o vínculo. Essas são hipóteses, portanto, não traduções automáticas.

Assim, na PSL, o sentido de um Gesto precisa emergir do relato do Portador, das situações em que aparece e de sua recorrência. Assim, o terapeuta não sabe de antemão o que um comportamento significa.

Da hipótese à investigação do Gesto

Por exemplo, uma pergunta pode abrir a investigação: “Se você escutasse a observação sem se explicar imediatamente, o que pareceria poder acontecer?”. A resposta talvez revele, no entanto, uma função percebida. Ainda assim, ela precisará ser confrontada com outras cenas e domínios da experiência.

O Gesto Fundante não exige uma cena fundadora

Assim, se uma regularidade atravessa diferentes situações, pode surgir a hipótese de um Gesto Fundante. Isso não significa, porém, que exista um dia único no qual tudo começou.

Lembrar a origem de um padrão não é pré-requisito para o Gesto Fundante

Por exemplo, pode haver acontecimentos identificáveis. Também pode haver, por outro lado, uma sequência de experiências pequenas, aprendizagens graduais ou uma origem que nunca se tornará narrativamente acessível. Assim, para a PSL, o interesse clínico está na organização que continua participando do presente.

Ao redor dela, por exemplo, podem aparecer possíveis Gestos Orbitantes, como antecipar, controlar, agradar, explicar-se ou recuar. Ainda assim, nenhum confirma isoladamente um Gesto Fundante. A confirmação depende, portanto, dos critérios do PIGF, incluindo recorrência em diferentes domínios e investigação longitudinal.

Tempo, Vínculo e Fluxo acompanham a mudança

No Tempo, pergunta-se se uma solução aprendida anteriormente continua sendo usada em situações presentes que já não exigem necessariamente a mesma resposta. O passado pode participar do presente, assim, como forma de antecipar e agir, mesmo quando não retorna como lembrança clara.

No Vínculo, observa-se qual posição relacional tende a ser preservada. Por exemplo: a pessoa precisa parecer impecável para manter seu lugar? Além disso, pode receber uma correção sem experimentar imediatamente perda de valor? Por fim, consegue permanecer em relação enquanto reconhece um erro ou uma dúvida?

Fluxo: por que lembrar a origem de um padrão importa menos que observar a mudança

No Fluxo, acompanha-se se o caminho entre ativação e resposta deixou de ser único. Talvez a profissional ainda sinta o peito apertar, mas consiga escutar antes de explicar. Em seguida, faça uma pergunta. Em outra ocasião, reconheça um equívoco sem construir uma defesa extensa.

Um gesto diferente, porém, não prova reorganização duradoura. A hipótese ganha consistência, portanto, quando a mudança reaparece, atravessa outros contextos e amplia de modo sustentável as possibilidades de resposta.

Os Dois Registros protegem a investigação

Assim, no Registro Fenomenológico-Simbólico, expressões como “memória encarnada”, “o passado voltou no corpo” ou “o gesto guardou o que não virou palavra” podem comunicar a qualidade da experiência. Elas têm, portanto, valor descritivo e simbólico.

No Registro Científico-Operacional, por outro lado, a linguagem precisa ser mais restrita. Por exemplo, podem ser observados padrões de atenção, respostas autonômicas, comportamentos recorrentes, contextos de evocação e mudanças ao longo do tempo. Ainda assim, memória não declarativa e aprendizagem implícita são campos científicos relevantes, mas não demonstram o Gesto Fundante ou os Gestos Orbitantes.

Por isso, os conceitos PSL permanecem constructos próprios, que precisam de definição, critérios e investigação. Assim, a interlocução com a ciência não deve ser convertida em validação automática.

É possível mudar sem encontrar a lembrança ausente

Assim, uma memória recuperada pode reorganizar uma narrativa. Por exemplo, pode dar contexto, produzir luto ou esclarecer uma relação. Ainda assim, não é condição obrigatória para que novas respostas sejam experimentadas.

Por que lembrar a origem de um padrão não é a única via de mudança

Assim, a pessoa pode aprender a perceber a ativação, reconhecer a função de um gesto, diferenciar contextos e ensaiar outra posição no vínculo. O trabalho ocorre, portanto, com aquilo que pode ser observado e vivido no presente, sem negar a história e sem inventá-la.

Ou seja, talvez a pergunta decisiva não seja “o que você esqueceu?”, pois lembrar a origem de um padrão nem sempre é o que muda a resposta. Pode ser, por exemplo, “quando isso acontece, o que você sente que precisa fazer?”. Se a resposta antiga deixou de ser a única disponível, alguma coisa começou a mudar — um movimento parecido ao discutido em Do insight à mudança: por que compreender um padrão não basta, mesmo que a origem nunca se transforme em uma história completa.

Referências