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Fundamentos da PSL

Modelo ABC: distinguir acontecimento, crença e consequência

O modelo ABC de Albert Ellis separa acontecimento, crença e consequência, sem equiparar A ao Campo, B ao GF ou C ao GO na PSL.

Modelo ABC: distinguir acontecimento, crença e consequência
Placa editorial da editoria Fundamentos da PSL.

Uma mensagem foi enviada às nove da manhã. Ao meio-dia, ainda não há resposta. Esse é o dado disponível. Uma pessoa imagina que o destinatário esteja ocupado e volta ao trabalho. Outra conclui que fez algo errado, sente o peito apertar e envia novas mensagens. O acontecimento se parece; a experiência que se segue, não, e essa diferença é o que o modelo ABC investiga.

Além disso, Albert Ellis organizou essa diferença no modelo ABC da Terapia Racional-Emotiva Comportamental, a REBT. A representa o acontecimento ativador ou a adversidade. B reúne crenças e avaliações. C indica consequências emocionais e comportamentais. O modelo ajuda a separar o que ocorreu, o significado atribuído e a resposta que veio depois.

O que o modelo ABC distingue

Por isso, o ABC recusa a ideia de que um acontecimento explique sozinho toda resposta psicológica. Entre uma crítica e a vergonha, por exemplo, pode aparecer a avaliação “isso prova que sou incompetente”. Outra pessoa recebe crítica semelhante, fica contrariada e pergunta o que precisa corrigir.

Assim, a distinção é analítica. Na vida, acontecimento, crença, emoção e comportamento influenciam-se em ritmos menos ordenados do que as três letras sugerem.

A é o acontecimento ativador no modelo ABC

Portanto, a pode ser uma crítica, uma perda, uma demora, uma lembrança ou uma sensação corporal percebida. O primeiro cuidado consiste em descrevê-lo com precisão.

Contudo, “Ela não respondeu por três horas” registra um fato. “Ela me despreza” já contém uma inferência. Separar as duas frases não decide qual é verdadeira, mas permite investigar cada uma.

O acontecimento não é neutro

No entanto, uma demissão altera renda, rotina e posição social. Uma agressão pode produzir lesão e risco imediato. O modelo ABC não transforma esses efeitos em mera opinião.

Ainda assim, seu foco está em como crenças e avaliações participam das consequências emocionais e comportamentais. A participação de B não cancela os efeitos físicos, materiais e relacionais de A.

A não é Campo Relacional no modelo ABC

Por outro lado, o acontecimento ativador localiza algo relevante numa sequência. Campo Relacional é um constructo descritivo da PSL para examinar uma configuração mais ampla, com pessoas, posições, condições e história de interação.

Da mesma forma, uma frase do parceiro pode funcionar como A. O modo como esse vínculo costuma lidar com diferença, silêncio e reparação pertence a uma análise mais extensa. Igualar A ao Campo reduz os dois conceitos.

B reúne crenças e avaliações no modelo ABC

Em contrapartida, b inclui preferências, exigências e avaliações sobre o acontecimento. “Quero ser aprovado” difere de “preciso ser aprovado ou não tenho valor”. A segunda formulação acrescenta uma obrigação e uma condenação global.

Consequentemente, b não precisa surgir como frase nítida. Às vezes, a avaliação aparece aos poucos, por meio de imagens, expectativas e palavras que a pessoa consegue nomear durante a investigação.

B não explica a experiência inteira

Dessa forma, estado corporal, história de aprendizagem, recursos atuais e comportamento alheio também participam da experiência. A crença ajuda a compreender uma sequência, mas não recebe monopólio causal.

Nesse sentido, uma leitura pode ganhar força porque a relação atual a sustenta. Em outro contexto, a mesma leitura talvez persista mesmo quando os fatos oferecem pouco apoio.

B não é Gesto Fundante

Ademais, Gesto Fundante é um constructo da PSL para investigar uma organização longitudinal e transversal dos Gestos. B descreve crenças e avaliações no modelo de Ellis. Uma crença intensa ou antiga não se transforma em GF por profundidade aparente.

Entretanto, também não há base para afirmar que toda crença irracional expresse algum GF. Muitas sequências podem ser compreendidas sem acrescentar esse constructo.

C reúne emoção e comportamento no modelo ABC

Por conseguinte, c inclui consequências como tristeza, medo, raiva, aproximação, silêncio, ataque ou pedido de esclarecimento. A emoção desagradável não é automaticamente disfuncional. Tristeza diante de uma perda pode acompanhar cuidado e adaptação.

Em suma, a pergunta útil é como a emoção e o comportamento se relacionam com os fatos, os objetivos e as condições disponíveis.

O Corpo participa sem provar

De fato, antes de uma crença ficar clara, no modelo ABC, o coração pode acelerar e os ombros podem endurecer. Essa ativação informa que algo ganhou relevância para o organismo.

Ao mesmo tempo, ela não revela sozinha se há ameaça atual, aprendizagem anterior, cansaço ou uma combinação dessas condições. “Meu Corpo reagiu” não equivale a “minha interpretação está correta”.

Situações semelhantes podem ter consequências diferentes

Mesmo assim, duas pessoas recebem a mesma nota. Uma pensa que gostaria de melhorar, sente decepção e revê o método de estudo. Outra conclui que o resultado destruiu seu futuro e abandona o curso.

Diante disso, o exemplo mostra a função de B, sem provar que todo contraste venha apenas da crença. Recursos, história e consequências reais também diferem.

Consequências também alteram relações

Sob esse aspecto, quando C inclui um Gesto, algo pode acontecer depois. A pessoa interpreta silêncio como rejeição e cobra uma resposta. O destinatário sente pressão e encerra a conversa.

Vale notar que, essa reação acrescenta um acontecimento à relação. A sequência não terminou simplesmente porque a análise chegou à letra C.

C pode tornar-se um novo A no modelo ABC

Cabe destacar que, o comportamento de uma pessoa pode funcionar como acontecimento ativador para outra. Depois, a resposta dessa segunda pessoa pode compor um novo episódio para a primeira.

Em outras palavras, é possível registrar sucessivos ABCs sem afirmar que existe uma entidade relacional produzindo os atos. Pessoas agem, interpretam e respondem; as consequências passam a integrar situações posteriores.

Circularidade não apaga responsabilidade

Ou seja, relações contêm influências recíprocas, mas responsabilidade ética permanece ligada a quem executa cada ato. Uma cobrança pode aumentar tensão. Ela não obriga o outro a humilhar, ameaçar ou agredir.

Nesse contexto, descrever a sequência ajuda a compreender como ela continua. Não serve para distribuir culpa igualmente quando há diferença de poder ou gravidade.

A reação não causa a agressão do outro

Como resultado, nenhuma crença transforma a pessoa em autora da violência sofrida. Mesmo que um Gesto tenha desagradado alguém, a conduta agressiva continua sendo responsabilidade de quem a realizou.

Do mesmo modo, LE3 exige atenção a coerção, dependência econômica, discriminação e recursos reais de saída. Uma explicação intrapsíquica não substitui esses dados.

A interpretação pode estar bem sustentada no modelo ABC

Em consequência, se uma chefia pune discordâncias repetidamente, esperar retaliação pode ser proporcional à evidência. Se um parceiro mente e controla contatos, desconfiança não deve ser corrigida como simples distorção.

Além disso, o fato de existir B não significa que B esteja errado. A investigação compara a avaliação com acontecimentos documentados, inclusive os desconfortáveis.

A interpretação também pode ser revista

Por isso, em outros casos, a avaliação excede os dados. A pessoa prevê abandono ao expressar uma preferência, mas o outro escuta e negocia. O resultado limita a previsão inicial.

Revisar não exige concluir que a preocupação era absurda. Significa formular uma crença mais precisa para aquela relação e aquele momento.

Informação discrepante não muda tudo de imediato

Assim, uma experiência favorável pode ser percebida como exceção. O Corpo talvez continue ativado mesmo quando a pessoa reconhece que a previsão não se confirmou.

Portanto, aprendizagens consolidadas costumam mudar com repetição, reflexão e condições suficientemente seguras. Um episódio acrescenta informação; não prova reorganização estável.

O Gesto influencia sem controlar

Contudo, perguntar com calma, atacar, afastar-se ou pedir tempo cria condições diferentes para o próximo momento. Nenhum desses Gestos determina a resposta alheia.

No entanto, na leitura PSL, influência indica participação observável na sequência. Controle exigiria poder garantir o resultado, algo que relações entre pessoas não oferecem.

O modelo ABC contém teorias excessivas

Ainda assim, antes de dizer que “o Campo mudou” ou que “um GF foi ativado”, o modelo convida a uma descrição mais simples. O que aconteceu? Qual avaliação apareceu? Que emoção e Gesto se seguiram?

Por outro lado, essa disciplina não reduz a experiência. Ela impede que um constructo amplo ocupe o lugar dos fatos que deveria ajudar a organizar.

Tempo acompanha sequência e trajetória no modelo ABC

Da mesma forma, Tempo permite observar o episódio atual e sua continuidade. O C de hoje pode participar de um A amanhã. Uma crença aprendida antes pode ganhar força em situações parecidas e perder precisão em outras.

Em contrapartida, a trajetória não transforma passado em causa permanente. Ela mostra recorrências, mudanças e períodos nos quais a sequência não ocorre.

Vínculo confronta avaliação com fatos no modelo ABC

Consequentemente, Vínculo pergunta como pessoas concretas respondem a necessidade, diferença e limite. Um silêncio pode significar pausa, indisponibilidade ou afastamento, conforme os acontecimentos daquela relação.

Dessa forma, a crença participa da experiência, mas os atos do outro fornecem dados independentes. A comparação evita tanto negar risco quanto presumir rejeição sem evidência suficiente.

Fluxo abre um intervalo de resposta

Nesse sentido, uma avaliação pode surgir sem comandar imediatamente o próximo Gesto. A pessoa percebe “estou concluindo que fui rejeitada” e decide pedir esclarecimento, esperar ou proteger-se, conforme o contexto.

Ademais, Fluxo cresce quando mais de uma resposta se torna acessível. Isso não significa escolher sempre a opção mais calma. Às vezes, a alternativa coerente é interromper o contato.

PIGF, dois registros e limites

GF só pode ser confirmado pelo PIGF. CR1 exige recorrência transversal em pelo menos três domínios da vida. CR2 observa carga afetiva ou somática associada. CR3 requer impacto em pelo menos 75% dos eventos críticos documentados. CR4 exige persistência em dois ou mais períodos. A confirmação requer CR1 mais dois entre CR2, CR3 e CR4. Uma sequência do modelo ABC repetida não substitui essa convergência.

Entretanto, no Registro Científico-Operacional, registram-se acontecimento, evidências, crença, grau de convicção, emoção, resposta corporal, Gesto e consequência posterior. No Registro Fenomenológico-Simbólico, a pessoa pode descrever uma mensagem sem resposta como uma porta fechada. A imagem comunica a experiência; não comprova rejeição sem tradução observável.

Por conseguinte, LE1 impede que ABC ou GF explique a pessoa inteira. LE2 preserva avaliação e cuidado apropriados diante de sofrimento intenso, risco ou outras necessidades clínicas. LE3 mantém visíveis violência, discriminação e restrições materiais. LE4 reconhece variação individual e a possibilidade de não haver GF dominante identificável.

Referências

Albert Ellis Institute. (s.d.). Rational emotive behavior therapy. https://albertellis.org/rebt-cbt-therapy/

David, D., Cotet, C., Matu, S., Mogoase, C., & Stefan, S. (2018). 50 years of rational-emotive and cognitive-behavioral therapy: A systematic review and meta-analysis. Journal of Clinical Psychology, 74(3), 304-318. https://doi.org/10.1002/jclp.22514

Turner, M. J. (2016). Rational emotive behavior therapy (REBT), irrational and rational beliefs, and the mental health of athletes. Frontiers in Psychology, 7, 1423. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2016.01423